Artigo Original

24/05/2007

O uso da acupuntura auricular na reabilitação de portadores de síndrome vestibular periférica

Roberto Muller1 , Carlos Kazuo Taguchi2 , Bernardo Cipele3

Introdução

A manutenção do equilíbrio postural do ser humano depende do sistema visual, vestibular e propriocepetivo, e sua disfunção causa as sensações de vertigem, tontura, desequilíbrio, associados ou não aos sintomas eurovegetativos que provocam perturbações na qualidade de vida de um indivíduo.1,2

As síndromes vestibulares periféricas seriam afecções que acometem o labirinto e/ou oitavo par craniano, enquanto as síndromes vestibulares centrais acometem os núcleos vestibulares, suas vias e inter-relações no SNC.3

A importância da avaliação da qualidade de vida dos pacientes portadores de disfunção vestibular está na contribuição que essas informações fornecem para o estabelecimento de terapias e tratamentos mais adequados2.

O Dizziness Handicap Inventory (DHI) foi um questionário desenvolvido em 1990 com o objetivo de avaliar a auto percepção dos efeitos prejudiciais impostos pelas disfunções do sistema vestibular4, e é considerado um instrumento capaz de medir uma condição específica sobre o estado da qualidade de vida de pessoas com disfunções vestibulares 5. A primeira versão do DHI para o português brasileiro ocorreu em 20016 e foi adaptado e validado em 2003.7 Estudos apontaram que pacientes com síndromes vestibulares apresentaram prejuízo na qualidade de vida por causa da tontura, em pelo menos dois aspectos avaliados pelo DHI brasileiro2 e demonstraram que a Reabilitação Vestibular (RV) promove benefício aos pacientes. 1,8

Como sabemos, as formas de tratamento existentes para as alterações do sistema vestibular são a medicamentosa, a cirúrgica e a reabilitação vestibular 9, sendo que esta última é o conjunto de exercícios específicos que promove a recuperação funcional do equilíbrio corporal10.

Apesar de existirem diversas opções terapêuticas no tratamento das vestibulopatias 9, e de encontrarmos na literatura estudos apresentando resultados positivos no uso da acupuntura na melhora dos sintomas associados às alterações do equilíbrio postural11, 12, não encontramos até o presente momento, qualquer referência sobre o uso específico da acupuntura auricular como forma de tratamento em reabilitação vestibular. Pesquisas recentes utilizando imagens por ressonância magnética funcional evidenciaram a ativação de determinadas estruturas cerebelares que participariam do controle vestibular com a aplicação da acupuntura13, que é definida como uma técnica milenar da Medicina Tradicional Chinesa (MTC) que consiste na estimulação, por meio de instrumentos apropriados, de pontos específicos localizados na pele, visando a terapia e cura de enfermidades.14,15,16.

A acupuntura auricular ou auriculoterapia é uma técnica da acupuntura que utiliza o pavilhão auricular para efetuar tratamento de saúde.17,18,19 Os estímulos dos pontos auriculares podem ser realizados com pequenas agulhas especiais denominadas "semi-permanentes", com esferas metálicas ou sementes de mostarda, sendo fixadas com fita adesiva por um período de até uma semana.20, 21

O objetivo deste trabalho foi verificar a melhora na qualidade de vida promovida pela acupuntura auricular em portadores de afecções vestibulares periféricas irritativas.


Método

Vinte pacientes crônicos, sem remissão espontânea das queixas de alteração do equilíbrio corporal, sem apresentar crises vertiginosas, com diagnóstico de síndrome vestibular periférica irritativa de origem idiopática, foram submetidos a dez sessões de acupuntura auricular. Os pacientes foram 16 de sexo feminino e 4 de masculino, com idade entre 18 e 71 anos (média de 53,85 anos). Este projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética do Curso de Pós-Graduação Stricto Sensu em Ciências da Reabilitação Neuromotora da Universidade Bandeirante de São Paulo (parecer 039/2005). Durante o período de tratamento por acupuntura auricular, a amostra não recebeu qualquer tipo de terapia física ou medicamentos e nenhum dos casos apresentava contra indicação para acupuntura (hemofílicos, gestantes e portadores de marca-passo), não havia portadores de alterações mental e/ou psiquiátrica, não apresentavam grande dificuldade de compreensão por distúrbios auditivos, nem se mostraram incapazes de compreender os objetivos da pesquisa ou responder ao DHI-brasileiro.

Cada paciente foi submetido a anamnese adaptada de Claussen et al (1988)22, e foi submetido ao Dizziness Handicap Inventory brasileiro (DHI-brasileiro) composto de 25 questões e que avalia três domínios: nove funcionais, nove emocionais e sete físicos.7 Este questionário foi aplicado no primeiro dia e no último dia do tratamento.

Para o tratamento os pontos auriculares foram selecionados segundo as indicações da acupuntura clássica encontrados na literatura para os tratamentos de vertigens e desequilíbrio corporal.19,20 Após a localização dos pontos auriculares foi realizada a assepsia e fixada a agulha semi-permanente com micropore. Foram alternados os lados direito e esquerdo em cada sessão, mesmo frente às disfunções unilaterais. Foram utilizadas agulhas auriculares semipermanentes (Press Needles) esterilizadas e descartáveis marca CWDisposable, com ponta ativa de um milímetro. O apalpador de pontos auriculares utilizado foi de modelo Nogier e o detector de pontos de acupuntura foi da marca Cosmotron RRD, modelo System TE99.

A auriculoterapia foi aplicada duas vezes por semana, durante um período de cinco semanas, totalizando dez sessões. Em cada sessão foram estimulados os pontos auriculares previamente selecionados segundo as indicações da acupuntura clássica, permanecendo a agulha auricular até a sessão seguinte, quando era, então, removida e uma nova aplicação realizada no outro pavilhão auricular.

Para análise estatística foi utilizado o software SPSS® (Statistical Package for the Social Scienses) versão 0.0. Os resultados do DHI brasileiro foram submetidos ao teste de Shapiro-Wilk, de Wilcoxon, e o t de student. Todos os resultados que apresentaram significância estatística foram ressaltados com asterisco.


RESULTADOS

À aplicação da anamnese22, observamos outros sintomas associados com a vertigem, sendo que dezoito dos vinte pacientes queixavam-se de estresse (90%), dezessete de zumbidos (85%), treze de náuseas (65%) e seis de vômitos (30%). Após o tratamento por auriculoterapia, observamos o auto-relato de melhora destes sintomas em dezessete pacientes com estresse (94,45%), quatorze com zumbidos (82,36%), doze com náuseas (92,30%) e cinco com vômitos (83,33%). Não foi observado nenhum caso de piora das queixas iniciais.

Em relação ao início da melhora da vertigem relatada pelos pacientes com a aplicação da auriculoterapia, 30% autorelataram a melhora a partir da terceira sessão, 30% a partir da quarta, 10% da quinta, 20% da sexta e apenas 5% após a sétima sessão, sendo um paciente (5%) não relatou melhora de seus sintomas.

À aplicação do DHI brasileiro apresentamos na tabela 1 os resultados por escore total e por cada domínio avaliado no período antes e depois do tratamento. Estes resultados foram submetidos ao teste de Shapiro-Wilk para análise da aderência dos dados à distribuição normal, conforme observamos na tabela 2, e em seguida foi aplicado o teste não-paramétrico de Wilcoxon.





Na análise dos resultados totais do DHI brasileiro observamos uma diferença significante dos valores apresentados antes e depois do tratamento (p<0,01), conforme observados na tabela 3.



Na análise de cada um dos domínios (funcional, físico e emocional) também constatamos diferenças significantes entre os valores apresentados antes e depois do tratamento por auriculoterapia (p<0,01).

Como o domínio físico apresentou aderência à distribuição normal, foi submetido ao teste paramétrico t de student, em que foi evidenciada uma diferença significante entre os valores apresentados antes e depois do tratamento (p<0,01), conforme mostra a tabela 4.




Discussão

Conforme a tabela 1, todos os vinte pacientes portadores de síndrome vestibular periférica irritativa apresentavam ao início deste estudo prejuízo na qualidade de vida mensurados pelo DHI brasileiro, o que foi concordante com trabalhos publicados.1,2,7,8

Observamos, ainda a diminuição da incidência dos sintomas estresse, náuseas e vômitos associados à queixa de tontura. Sabe-se que a acupuntura melhora os estados psicoemocionais como ansiedade13,23,24, depressão, pânico e agorafobia, freqüentemente encontradas depois de uma crise vestibular2, com uma melhora em 94,45% dos casos.

Apesar não ter sido encontrado qualquer trabalho similar na literatura consultada, os resultados positivos desta pesquisa estiveram de acordo com os resultados encontrados na RV, em que o DHI brasileiro serviu de instrumento de análise qualitativa para estudar o benefício.1, 2,8

Na análise por domínios pudemos observar que nessa amostra o domínio funcional foi o mais comprometido com 448 pontos (38,76%), seguido do domínio físico com 368 (31,83%) e do emocional com 340 (29,41%), fato este observado em outros estudos onde os domínios físicos e funcionais também foram os mais comprometidos. 1,2,5,8 Após o tratamento, segundo a diferença dos escores, observamos que o domínio com maior índice de melhora foi o funcional com 280 pontos (41,06%), seguido do emocional com 204 (29,91%) e do físico com 198 (29,03%). Com esses resultados observamos que a auriculoterapia aplicada nessa população beneficiou mais o aspecto funcional, seguido do emocional e, por fim, o físico.

A população dessa pesquisa apresentou melhor evolução relacionada ao benefício proporcionado com a acupuntura auricular no domínio funcional, com diferença estatisticamente significante. A diferença de escore variou de 6 a 22 pontos entre a fase inicial e a final. Com esses dados, notamos que a acupuntura auricular proporcionou a melhora da qualidade de vida no domínio funcional dos participantes deste estudo em 95% dos casos. Em relação a cada um dos domínios avaliados, nossos resultados para o domínio emocional foram concordantes com alguns trabalhos realizados, indicando que acupuntura auricular beneficiou os estados psicoemocionais como ansiedade, depressão e pânico nesta nossa população23,24.

Para o domínio físico, a amostra apresentou a menor diferença de escore, o que pode ser justificado pelo comprometimento individual de cada paciente e ao fato de que o número de questões referentes a cada domínio que fazem parte do DHI brasileiro ser desigual, porém, auriculoterapia também promoveu melhora significante entre as fases inicial e final (p<0,01)8.


Conclusão

Nesse estudo pudemos concluir que a acupuntura auricular promoveu melhora na qualidade de vida dos pacientes portadores de síndrome vestibular periférica irritativa de causa idiopática.


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1. Mestre em Ciências da Reabilitação Neuromotora pela UNIBAN. Fisioterapeuta e especialista em Acupuntura Clássica Chinesa. Cirurgião-Dentista especialista em Homeopatia.
2. Doutor em Ciências dos Distúrbios da Comunicação Humana - UNIFESP. Fonoaudiólogo especialista em Audiologia.
Professor do Curso de Mestrado em Ciências do Movimento Corporal da UNIBAN. Professor Adjunto da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.
3. Médico Otorrinolaringologista do Hospital Geral de São Mateus - São Paulo.
Local da Pesquisa: Universidade Bandeirante de São Paulo - UNIBAN. Endereço para correspondência: Roberto Muller.
Rua das Palmeiras, 404. Santa Cecília - São Paulo - SP. CEP 01226-010 - e-mail: pdrmuller@uol.com.br

 

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