Revista Medicina Física e Reabilitação

14/01/2003

Campanha nacional de doação de próteses: resultados parciais do Serviço de Reabilitação da Santa Casa de São Paulo

Eduardo de Melo Carvalho Rocha*; Gisela Andrade Miranda Lima**; Heitor Donizete Gualberto***; Anelis

RESUMO

Neste estudo os autores apresentam os resultados parciais da Campanha Nacional de Doações de Próteses pelo Sistema Único de Saúde, no Centro de Reabilitação da Santa Casa de São Paulo. Foram incluídos 138 pacientes com 150 amputações, 94% destas de membros inferiores. Nossos resultados são comparados com os da literatura. Palavras chave: Amputação. Próteses e Implantes. Reabilitação.

ABSTRACT

In this study the authors present the partial results of the National Campaign of Prothesis Donation by Heath Unificated System, in the Rehabilitation Center of Santa Casa of São Paulo. It's included 138 patients, with 150 amputations, 94% of the lower limb. Our results are compared with the literature.

Keywords: Amputation. Protheses and Implants. Rehabilitation.

INTRODUÇÃO

No Brasil estima-se que a incidência de amputações seja de 13,9 por 100000 habitantes/ano (1), mas não há dados quanto ao número de amputados protetizados e nem de suas limitações funcionais. Na literatura mundial há controvérsias quanto a incidência de amputações, variando de 2.8 a 43.9 por 100000 habitantes/ano , sendo mais significante na população diabética onde chega a 440 por 100000 hab/ano(2).

Durante o período de outubro a dezembro iniciou-se na Santa Casa de São Paulo a Campanha Nacional de Doações de Próteses, que foi uma iniciativa do Ministério da Saúde do Brasil, para doação de próteses e órteses através de verba proveniente do Sistema Único de Saúde do governo federal brasileiro. O Serviço de Reabilitação da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo é classificado como serviço de referência em Medicina Física e Reabilitação, e como tal participou deste programa.

O objetivo do trabalho foi a análise dos dados dos pacientes com amputações que participaram da Campanha Nacional de Doações de Próteses do Sistema Único de Saúde, no Serviço de Reabilitação da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, quanto a distribuição por idade, sexo, nível e etiologia da amputação, avaliação funcional e escala subjetiva de satisfação pessoal.

MATERIAIS E MÉTODOS

Foram avaliados 138 pacientes com amputação de membros superior e inferior que foram incluídos na Campanha Nacional de Doações de Próteses do Sistema Único de Saúde, no Serviço de Reabilitação da Santa Casa de São Paulo, durante os meses de outubro a dezembro de 2002.

Como critérios de protetização incluiam-se: coto cônico e com 3 medidas iguais consecutivas, sem lesões tróficas, ausência de deformidades estruturadas ou então uso prévio de próteses que se encontravam em mau estado de conservação.

Para cada paciente foi preenchido protocolo constando: identificação, nível, tempo e etiologia da amputação, uso prévio de prótese (provisória ou definitiva), modo de locomoção, grau de dependência funcional, escala de satisfação pessoal com pontuação de 0-10 conferido pelo próprio paciente (sendo 10 a nota de máxima satisfação) no início e no final do programa, sendo estes os dados analisados neste trabalho.

Todos os pacientes foram encaminhados para avaliação fisioterápica e de terapia ocupacional. Na fisioterapia foram incluídos no protocolo de tratamento constituído de: exercícios de alongamentos de isquiotibiais e psoas, fortalecimento de quadríceps, glúteos, abdominais, extensores de membros superiores, exercícios de equilíbrio com balanceio lateral e antero-posterior, treino de colocação da prótese sentado e em pé (com faixa elástica e saco para calçar), treino de marcha com prótese (nas barras paralelas; no andador, na muleta, bengala, rampa e escada). Em terapia ocupacional os pacientes foram trabalhados para ganho de independência nas atividades de vida diária e prática, colocação da prótese, análise das condições do domicílio, e treino de locomoção. (Foto 1).

RESULTADOS

Foram avaliados 138 pacientes, 141 com amputações de membros inferiores e 9 de membros superiores, num total de 150 amputações.

Houve prevalência do sexo masculino com 74 % em relação ao sexo feminino 26% (Gráfico1).

Gráfico 1


A idade variou de 5 a 95 anos , média de 46,8 anos, com predomínio da faixa entre 41 a 60 anos (40,31%) (Gráfico 2). O tempo médio de amputação foi de 7,3 anos, porém 53 pacientes (41,1%) tinham menos de 2 anos de amputação.

Gráfico 2


Quanto ao nível de amputação de membros inferiores houve predomínio das transfemorais (65), seguido das transtibiais (58), perfazendo as duas juntas 87,2% dos casos; além de desarticulação de quadril (4), parcial do pé (10), desarticulação de joelho (4) (Gráfico 3). Dentre as transfemorais e transtibiais houve maior número de amputações a direita (62) comparado com a esquerda (61), que foi estatisticamente insignificante.

Gráfico 3


Várias foram as causas das amputações e alguns pacientes apresentaram múltiplas etiologias. As causas não traumáticas (64,5%) prevaleceram em comparação com as traumáticas (35,5%), embora isoladamente o trauma teve o maior número absoluto de pacientes. (Gráfico 4)

Gráfico 4


Cinquenta e um porcento dos pacientes já usavam prótese anteriormente e 10% em algum momento haviam treinado com prótese provisória; assim, 48,1% dos pacientes deambulavam sem auxílio (62), 31,8% com uso de muletas (41), 4,6% com auxílio de andador(6), 10,1% se locomovem com auxílio de cadeira de rodas (13) e 5,4% com auxílio de bengala.

Cento e dezesseis pacientes tinham a função de marcha, sendo que 102 marcha comunitária (87,9%), 13 com marcha domiciliar (11,2%) e 1 com marcha terapêutica (0,9%) (Gráfico 6). Ao final do treino de reabilitação o número de pacientes usuários de muletas caiu para 15,5 % (20), e houve aumento no número de pacientes com marcha comunitária para 93,7% (109).

Para a realização de atividades de vida diária e vida prática 89,1% estavam totalmente independentes e 10,1% parcialmente dependentes, e 0,8% dependente.

No questionário subjetivo de qualidade de vida 2 meses antes da aquisição da prótese a média foi de 7,61 pontos e atualmente, com o início da terapia, a média aumentou para 9,35 pontos.

DISCUSSÃO

Poucos estudos em nosso meio tratam de incidência de amputações, sendo a incidência estimada em 13,9 por 100000 habitantes/ano, sendo maior em diabéticos (180,6 por 100000 habitantes/ano) na cidade do Rio de Janeiro(1). Este número é provavelmente mais baixo do que a realidade, uma vez que em apenas 2 meses de campanha selecionamos 138 pacientes, levando em consideração apenas os casos em que os pacientes se deslocaram ao Centro de Reabilitação da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, ou seja em boas condições clínicas. Deste modo acreditamos que novo estudos epidemiológicos devem ser feitos com o objetivo de avaliar a prevalência de amputados, e desta forma permitir a adequação das reais necessidades reabilitativas desta população. Na literatura internacional os números são controversos, variando de 2,8 a 43,9 por 100000 habitantes/ano (2) , sendo de 1,6 a 38 por 100000 habitantes/ano em não diabéticos e 46,1 a 440 por 100000 habitantes/ano em diabéticos.

Nas amputações transtibiais e transfemorais os números são de 15 por 100000 hab/ano em não diabéticos e 79 por 100000 hab/ano entreos diabéticos, sendo também descrito 70 por 100000 hab/ano para amputação de membros inferiores.(1,3,4,,5,6,7)

Apenas um estudo relata a incidência de protetização que foi de 21,5% após amputação de membro inferior(8).

Na literatura, as amputações predominam no sexo masculino(2). O índice variou de 65,7%(9) a 72,4%(10) de amputações do sexo masculino, valores estes próximos ao encontrado em nosso estudo (74%).

A faixa etária de 41 a 60 anos foi a mais freqüente entre nossos pacientes (40,31%), o que foi observado também por Muyembe et al (1999), porém alguns autores consideraram a faixa acima de 60 anos como a mais freqüente, principalmente nos pacientes diabéticos(10,11), com tendência de aumento da incidência de amputação com envelhecimento(2,10).

Em relação a etiologia das amputações, prevalecem as causas não traumáticas tanto na literatura(1,6,9,10,12), onde chega a 85,8% segundo Spichler et al, quanto em nosso estudo (64,5%). Por nosso serviço ser ligado ao Departamento de Ortopedia e Traumatologia apresentamos grande número de causas traumáticas (35,5%) e não traumáticas tumorais (12,8%), fato que também foi demonstrado em outro estudo.(8)

Entre as causas não traumáticas encontramos predomínio das alterações vasculares, o que também ocorre em outros trabalhos.(1,12) A segunda causa de amputações não traumáticas em nosso estudo foi a diabetes, e a tumoral a terceira, ao contrário de alguns trabalhos que apontam esta primeira como principal causa entre estas amputações(6,9), embora muitos consideram as alterações vasculares como decorrentes da própria diabetes(3).

O risco do paciente diabético ter amputações varia na literatura de 10 a 25 vezes acima do que a população normal.(1,5,6) 47,9% a 77,4 das amputações não traumáticas ocorrem em diabéticos(5,10).

Entre as causas traumáticas os acidentes automobilísticos são mais freqüentes que os acidentes de trabalho, confirmado pela nossa amostra aonde os acidentes de trânsito são responsáveis por 90% das amputações traumáticas. (9)

Quanto ao nível de amputação os dados de literatura confirmam a maior incidência de amputações transfemorais e transtibiais(2,4,9,10), porém as transtibiais foram as mais freqüentes, variando de 72-80%(2,13) comparando com as transfemorais, diferente do que encontramos em nosso trabalho, onde estas últimas predominaram.

A incidência das amputações em membros inferiores na literatura variou de 94-97,5%(8,9) , que foi também comprovado em nossa casuística (94%).

As amputações em crianças são congênitas ou adquiridas, sendo estas últimas mais freqüentes(14). Geralmente as crianças apresentam alterações em mais de um membro(15), sendo na literatura a média de colocação de prótese com 18 meses. Nossas crianças apresentaram idade média de 7,3 anos (5 a 14 anos), 1/3 delas sem prótese prévia, 50% com amputação por etiologia tumoral.

Apenas um trabalho aplicou escala para avaliação de função (Sickness Impact Profile), concluindo que diabéticos amputados, principalmente transtibial e transfemoral, têm alteração funcional maior que aqueles não amputados(16).

Em nosso estudo 51% dos pacientes já usavam prótese, embora em mau estado, e 10% estavam em tratamento reabilitação com prótese provisória, o que justificou a alta pontuação na escala de satisfação pessoal no início do programa e o aumento moderado da pontuação com a protetização.

Mesmo com 49% de pacientes sem uso prévio de próteses, 87,9% apresentavam marcha comunitária e a maioria com total independência nas atividades de vida diária e vida prática, talvez explicado pela faixa etária de 41-60 anos e também pelo grande número de causas traumáticas e tumores ósseos em nossa casuística.

CONCLUSÃO

1. Houve predomínio das amputações de membros inferiores, em pacientes do sexo masculino, com faixa etária de 41-60 anos.

2. Nas amputações de membros inferiores as mais freqüentes foram os níveis transtibial e transfemoral.

3. O trauma foi a causa mais prevalente

4. Os pacientes apresentaram aumento no índice de satisfação pessoal com a protetização.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

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* Mestrando da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo
** Estagiária do segundo ano em Medicina Física e Reabilitação da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo
*** Fisioterapeuta Superior responsável pelo grupo de amputados do Serviço de Reabilitação da Santa Casa de São Paulo
**** Terapeuta Ocupacional responsável pelo grupo de amputados do Serviço de Reabilitação da Santa Casa de São Paulo
***** Assistente Social do Serviço de Reabilitação da Santa Casa de São Paulo
****** Técnico em próteses
******* Técnico em próteses
******** Diretor do Serviço de Reabilitação da Santa Casa de São Paulo.

Data de recebimento do artigo 16/12/02
Data da Aprovação 12/01/02

Contato: Eduardo de Melo Carvalho
Endereço e telefone: Rua Graúna, 262 ap. 52 - (11) 5042-2622

 

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