Revista Medicina Física e Reabilitação

11/01/2003

O efeito da equoterapia na espasticidade dos membros inferiores

*Luiz Antônio de Arruda Botelho; **Bianca Giglio de Oliveira; *** Sinária Rejany Nogaia de Sousa

RESUMO

O objetivo deste estudo foi o de analisar os efeitos da hipoterapia na espasticidade de pacientes com paralisia cerebral e lesão medular.

A hipoterapia é uma terapia montando a cavalo para pessoas portadoras de deficiências para se obter uma melhora no tônus muscular, para ganhar amplitude de movimentos entre outros benefícios sociais e psicológicos.

Neste estudo foram incluídos 14 pacientes espásticas (10 com paralisia cerebral e 4 com lesão medular) . Todos os pacientes tiveram uma melhora da espasticidade graduada pela escala de Ashworth modificada.

Palavras-chave: Paralisia cerebral/terapia, Cavalos, Espasticidade, Amplitude de movimento articular

ABSTRACT

The objective of this study was to analyse the effect of the Hippotherapy in the spasticity of patients with Cerebral Palsy and Spinal Cord Injury.

The Hippotherapy is a therapeutical horseback riding for disable people to promote an improvement in the muscle tonus, to gain range of motion among other social and psichological benefits. In this study were included 14 spastic patients ( 10 with cerebral palsy and 4 with spinal cord injury). All of them showed an improvement in the modified Ashworth scale.

Key-words: Cerebral palsy/therapy, Horses, Spasticity, Range of motion, articular

INTRODUÇÃO

A Espasticidade é uma hipertonia muscular involuntária, presente nas lesões piramidais do Sistema Nervoso Central, mais especificamente na via inibitória córtico-retículo-bulbo-espinal. A espasticidade é caracterizada por hiperexcitabilidade do reflexo miotático, desencadeada pelo estiramento do fuso muscular, dependente da velocidade(1).

A espasticidade pode ser tratada através de meios físicos, químicos e cirúrgicos. Os medicamentos sistêmicos comumente utilizados são o baclofeno, a tizanidina, os benzodiazepínicos e mais raramente o dantrolene sódico. Dentre os meios físicos estão a crioterapia, a hidroterapia e a cinesioterapia. É fundamental reduzir os estímulos nociceptivos e outros fatores que possam desencadear a espasticidade(2).

A Equoterapia já é utilizada há mais de 30 anos na Europa e Estados Unidos. No Brasil vem sendo desenvolvida desde 1989 (3) e tem sido descrita a sua eficácia na redução da espasticidade nos membros inferiores entre outros benefícios físicos e psíquicos (4). Não existem referências bibliográficas de trabalhos científicos brasileiros empregando a Equoterapia para o tratamento da espasticidade e o Conselho Federal de Medicina já reconheceu a Equoterapia como uma modalidade terapêutica, mas recomenda a realização de pesquisas para comprovar cientificamente as melhoras observadas nos pacientes.

A Equoterapia é um método terapêutico e educacional que utiliza o cavalo dentro de uma abordagem multidisciplinar e interdisciplinar nas áreas da Saúde, Educação e Equitação, buscando o desenvolvimento biopsicossocial de pessoas portadoras de deficiência física e/ou mental(5).

A Equoterapia exige a participação do indivíduo como um todo, contribuindo assim para o desenvolvimento global do praticante. Quando o cavalo se desloca ao passo, ele produz um movimento tridimensional no seu dorso, nos três eixos, para cima e para baixo, para frente e para trás, para direita e para esquerda. Tal movimento é transmitido ao cavaleiro pelo contato de seu corpo com o dorso do animal(6).

Desse modo são gerados estímulos repetidos, com ritmo, amplitude e velocidade adequados capazes de provocar a diminuição do tônus muscular, por um mecanismo denominado estimulação vestibular lenta.

MATERIAL E MÉTODO

Para a avaliação dos resultados da Equoterapia na espasticidade dos membros inferiores foram examinados 14 pacientes, tendo como critério de inclusão a presença de um tônus muscular espástico e como critério de exclusão a existência de deformidades estruturais. Desses pacientes, 10 (dez) eram portadores de paralisia cerebral e 4 (quatro) paraplégicos por trauma raqui medular.



No início da terapia foi medido o grau de espasticidade de todos os pacientes através da escala de Ashworth modificada nos músculos adutores de quadril, quadriceps, isquio-tibiais e tríceps surais dos
membros inferiores e a distância intercôndilar (DIC) foi medida com fita métrica entre os côndilos femorais mediais, após abdução passiva lenta e brusca. Esses dados foram reavaliados logo após a sessão de Equoterapia. Após 10 (dez) sessões de Equoterapia, os mesmos dados foram colhidos novamente antes e após a terapia, através do mesmo tipo de exame físico.



O método utilizado para o tratamento foi a Hipoterapia, com uma sessão de 30 (trinta) minutos uma vez por semana com o cavalo ao passo. Hipoterapia é a subdivisão da Equoterapia que trata de pacientes dependentes do terapeuta para se manter montados no cavalo.

RESULTADOS

Com base nos dados obtidos na Escala de Ashworth modificada dos pacientes com paralisia cerebral, os músculos adutores direito e esquerdo apresentaram uma diminuição média de 0.5 grau na 1ª sessão, este resultado estava mantido no início da 10ª sessão e no final da terapia houve uma redução adicional de 0.5 grau na escala de Ashworth modificada. Nos pacientes com trauma raqui-medular, os adutores direitos apresentaram uma diminuição média de 1 grau e os adutores esquerdos tiveram uma diminuição média de 0.5 grau na 1ª sessão; na 10ª sessão havia tendência a queda de 0.25 grau nos dois membros, nos quatro pacientes.



Nos quadríceps dos pacientes com paralisia cerebral, na 1ª sessão o membro direito apresentou uma queda da hipertonia de 0.85 grau em média, no membro esquerdo a queda foi de 0.5 grau em média, na escala de Ashworth modificada. Na 10ª sessão o mesmo grupo muscular teve uma redução adicional de 0.5 grau na escala de Ashworth modificada. Nos pacientes com trauma raqui-medular, na 1ª sessão o quadríceps direito apresentou uma diminuição de 0.5 grau e no quadríceps esquerdo a redução foi de 1 grau. Na 10ª sessão o quadríceps direito apresentou uma redução média de 0.25 grau e o quadríceps esquerdo de 0.75 grau na escala de Ashworth modificada.

Nos ísquio-tibiais dos pacientes com paralisia cerebral no membro direito houve uma redução média de 1 grau na 1ª sessão, e no membro esquerdo a redução foi de 0.30 grau na escala de Ashworth modificada. Após 10 sessões houve uma uma redução adicional de 0.35 grau no membro direito e 0.65 grau no membro esquerdo. Nos pacientes com trauma raqui-medular, na 1ª sessão, os ísquios-tibiais apresentaram uma redução média de 0.75 grau no membro direito e de 1 grau no membro esquerdo; na 10ª sessão havia uma queda de 0.75 grau no membro direito e 1.12 grau em média no membro esquerdo.

Na avaliação do tríceps sural dos pacientes com paralisia cerebral, na 1ª sessão houve uma redução da hipertonia no membro direito de 0.90 grau na escala de Ashworth modificada, e no membro esquerdo a redução foi de 0.65 grau. Após 10 sessões ocorreu uma redução adicional de 0.25 grau em ambos os membros. Nos pacientes com trauma raqui-medular, na 1ª terapia, a redução apresentada foi de 1 grau em ambos os membros, na 10ª houve uma redução adicional de 0.5 grau no membro direito e esquerdo.

A distância intercôndilar (DIC) dos pacientes com trauma raquimedular na abdução inicial brusca foi de 23 cm e no final da terapia 29.5 cm; Na abdução lenta inicial de 30cm e no final da sessão de 35.5 cm; Após 10 sessões a abdução brusca inicial foi de 30.5 cm e no final da terapia de 43.5 cm, a abdução inicial lenta foi de 40 cm e no final da sessão de 46 cm.

Nos pacientes com paralisia cerebral a DIC brusca na 1ª sessão foi de 18 cm e no final da terapia de 23 cm, na abdução lenta inicial foi de 23 cm; e no final da terapia de 28.5 cm. Após 10 sessões, a abdução brusca inicial foi de 24 cm e no final da terapia de 29 cm, e na abdução lenta inicial foi de 30 cm e no final da terapia de 35 cm.

CONCLUSÃO

Em todos os 14 casos observados, observamos alguma melhora da espasticidade, mensurada pela escala de Ashworth modificada e pela amplitude de abdução dos quadris, mensurada através da distância intercôndilar, com movimentos bruscos e lentos.

A Equoterapia parece ser um método coadjuvante válido para reduzir a espasticidade e para aumentar a amplitude de abdução dos quadris. Estudos com maior número de pacientes são necessários para se avaliar a significância estatística das tendências encontradas nesta investigação preliminar.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. Greve JMD. Fisiologia e avaliação clínica da espasticidade. Rev Hosp Clin Fac Méd Univ São Paulo 1994; 49(3): 141-4.

2. Fernandez JZ. Espasticidade no acidente vascular cerebral. [Trabalho de Conclusão de Curso]. São Paulo: UNIBAN, 1997.

3. Botelho LAB. A hipoterapia na medicina de reabilitação. Acta Fisiátrica 1997; 4: 44-6.

4. Equoterapia: terapia com o uso do cavalo. (Manual de instrução da Ande-Brasil, n.256).

5. Paiva LL. O cavalo como instrumento terapêutico: uma abordagem fisioterapêutica em equoterapia. Porto Alegre: AGE; 1997.

6. Wickert H. O cavalo como instrumento cinesioterapêutico. Brasília: Ande-Brasil; 1999.


"Estimulação Elétrica Funcional - FES constitui edrecurso terapêutico, por excelência dirigido às afecções de origem muscular, tendo em vista o seu mecanismo de ação na contratilidade muscular e na função osteoarticular, cujos resultados são: a melhoria dos padrões posturais, da marcha e das funções do membro superior.

Os pacientes portadores de paralisias espásticas e tremores são igualmente beneficiados, nos quais se incluem os casos de doença de Parkinson.

A Estimulação Elétrica Funcional - FES apresenta, também ótimos resultados terapêuticos, ao ser associada com as injeções de toxina botulinica, em pacientes com contraturas musculares, espásticas ou não, e com o uso de órteses para a manutenção e continuidade dos efeitos terapêuticos obtidos. O livro se compõe dos seguntes capítulos:

1- Desenvolvimento da Eletroterapia
2- Bases da Estimulação Neuromuscular
3- Critérios de Avaliaçâo dos Pacientes
4- FES e Hemiplegia
5- Lesão Medular: Técnica FES
6- Paralisia Cerebral e FES
7- FES aplicada e FES

É, pois, trabalho de consulta ou de referência obrigatória para o profissional de Medicina de Reabilitação e , por extensão, de reabilitação vivamente interessados em melhor qualificar o seu atendimento médico.

À Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, pelo apoio ao desenvolvimento da reabilitação hospitalar.

À Faculadde de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, pela valorização da Medicina de Reabilitação em seu currículo de graduação."

* Diretor Clínico da Fundação Selma
** Fisioterapeuta da Fundação Selma
*** Fisioterapeuta estagiária da Fundação Selma

Data de recebimento do artigo 29/06/02
Data da Aprovação 6/12/02

Endereço para correspondência: Rua Conceição Marcondes Silva, n.º 170
Campo Belo. E-mail fund-selma@fund-selma.org.br

 

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