Revista Medicina Física e Reabilitação

20/05/2003

Avaliação do atendimento concentrado para pacientes portadores de lombalgia no Centro de Reabilitação da Santa Casa- SP

Cyro S de A Júnior*, Carina E Baron**, Gisele B Eller**, Andressa R Felix**, Fernando B Benvenuto***

INTRODUÇÃO

A lombalgia continua nos dias de hoje a ser um problema de saúde publica (1). A dor lombar é uma queixa muito freqüente e potencialmente incapacitante (2), causando graves prejuízos econômicos (3).

No SRSCSP há uma grande demanda de pacientes com incapacidades por lombalgia e, em muitas ocasiões, não temos condições de atendê-los através de técnicas terapêuticas individualizadas, o que nos motivou a buscar soluções que possibilitassem prestar assistência na forma de grupos de orientação.

RESUMO

O atendimento concentrado da lombalgia é uma forma de avaliação e tratamento prestada por uma equipe multidisciplinar a grupos de pacientes, que são orientados quanto às medidas de autocuidados que devem adotar.

Os resultados quanto à redução da intensidade da dor, do aumento da elasticidade muscular e da melhora na qualidade de vida foram satisfatórios.

Palavras Chave: Dor lombar, Centros de reabilitação, Qualidade de vida

ABSTRACT

Concentrated assistance on low back pain is a way of evaluating and treating a group of patients - who are oriented in terms of the self-care measures to be adopted - conducted by a multi-disciplinary team.

Results regarding the reduction of pain, increase in muscle elasticity and consequent improvement of quality of life were considered satisfactory.

Key words: Low back pain, Rehabilitation centers, Quality of life.

O atendimento concentrado em grupos de pacientes com lombalgia é uma proposta terapêutica aonde coletivamente são avaliados e tratados pacientes com diagnóstico de lombalgia postural.

O objetivo deste trabalho é avaliar os resultados obtidos deste atendimento concentrado de lombalgia (ACL).

MATERIAIS E MÉTODOS

O ACL foi realizado em três sessões de atendimento e a equipe responsável pela avaliação e tratamento foi formada por médicos, fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais.

No primeiro encontro realizado em 24/09/2002, dos 41 pacientes convocados, compareceram 21, que assistiram a uma palestra aonde foi apresentada a metodologia do trabalho e as dúvidas dos pacientes quanto às suas queixas foram respondidas.

A avaliação da dor foi mensurada segundo a Escala Visual de Dor (EVD)(4). A distância mão-solo durante flexão da coluna lombar(5) (Figura 1) e a medida do ângulo poplíteo foram parâmetros indicativos do condicionamento músculo-articular.

O questionário de qualidade de vida SF-36(6,7) foi aplicado em todos os pacientes. O SF-36 é multidimensional, formado por 36 itens, adaptados para nosso meio em 8 componentes(6,7): (1) limitação nas atividades de vida diária; (2) limitação das atividades por problemas de saúde; (3) dor no corpo; (4) percepção geral de saúde; (5) vitalidade (energia e fadiga); (6) limitação de atividades sociais por problema de saúde; (7) limitação nas atividades de vida diária por problemas emocionais e (8) saúde mental geral (controle psicológico e bem- estar).

As orientações terapêuticas do ACL foram realizadas com duas estratégias. A primeira, no setor de fisioterapia, aonde os pacientes foram orientados quanto a realização de exercícios visando melhora da flexibilidade(8) e reeducação postural (8) (exemplos destes exercícios podem ser vistos nas Figuras 2, 3 e 4) e também quanto a utilização de meios físicos domiciliares com o objetivo de analgesia(16,18). No setor de Terapia Ocupacional, foi apresentado, através de recursos audiovisuais a importância da postura correta durante a execução das atividades de vida diária (AVD).

Durante o segundo encontro no dia 28/10/2002, os 18 pacientes que estiveram presentes foram separados entre os que apresentaram a manutenção ou piora da EVD em relação ao primeiro encontro, para uma reavaliação médica individual visando a adoção, quando necessário, de medidas terapêuticas auxiliares (restrição a atividades(8,); medicamentosas (9,10), uso de coletes (9,11) etc.).

No último encontro, realizado em 26/11/02, compareceram 12 pacientes, sendo todos reorientados quanto aos exercícios e às atividades de vida diária.

Figura 1                              Figura 2


Figura 3                              Figura 4


RESULTADOS

A avaliação dos pacientes que concluíram as três etapas de procedimento foi a seguinte:

Idade média dos pacientes de 53 anos, sendo 2 pacientes do sexo masculino e 10 do sexo feminino.

As lombalgias tinham alterações posturais associadas: protusões discais (6 pacientes); listese grau I (2 casos); osteoartrose (12 pacientes) .

DISCUSSÃO

A lombalgia é queixa tão freqüente que cerca de 80% das pessoas, em alguma fase de sua vida são acometidas por dores lombares(1,12).

Diversos estudos propõem abordagem multiprofissional no tratamento de pacientes com afecções de coluna através das chamadas escolas de coluna,(13,14,15) com resultados satisfatórios principalmente quanto à melhora da dor,(13,14,15) retorno ao trabalho, avaliação funcional(13) e aspectos físicos e emocionais.(13,15)

O ACL diferente das escolas de coluna, ocorre de maneira mais compacta tanto em termos de equipe multiprofissional quanto em número de encontros.

Na análise do quadro álgico, através da Escala Visual de Dor (EVD)(4), obtivemos uma média de 7,9 na avaliação inicial e 6,66 de média final; sendo que 7 pacientes (56%) referiram melhora da dor na avaliação final. Essa melhora pelo tipo de abordagem nos parece significativa, principalmente se comparada a outros estudos de abordagem mais complexas, como de Hall e Hadler(15) com melhora em apenas 46% dos pacientes (15) (Quadro 1).

A associação de recursos de medicina física, tais como aplicação de compressas quentes e de exercícios com o objetivo de aumentar a elasticidade muscular, visou promover o estabelecimento de um círculo virtuoso, aonde a redução da dor facilita os alongamentos dos grupos musculares e, desta forma, o aprimoramento postural. Este objetivo foi atingido em 50% dos casos (Quadro 2 e 3).

O Teste de Qualidade de Vida (SF-36) é um método de avaliação física e mental, podendo ser usado para comparar uma população geral ou específica, diferenciando os benefícios à saúde produzidos por diferentes tratamentos(7).

Quadro 1


Quadro 2


Quadro 3


Quadro 4


De maneira geral, comparando a avaliação inicial com a final (Quadro 4), obtivemos melhora em quase todos os itens do SF-36 havendo destaque principalmente no estado geral onde 11 pacientes referiram melhora, ou seja, a abordagem realizada trouxe sensação de bem estar geral, talvez, relacionado com a proximidade dos profissionais da saúde envolvidos em seu tratamento. Encontramos 7 pacientes com melhora do quadro álgico, reafirmando os dados pesquisados na EVD anteriormente. A maioria dos pacientes também referiu melhora na capacidade funcional, vitalidade, aspectos físicos e emocionais, além da saúde mental.

O programa básico de ergonomia buscou corrigir as posturas e orientar os movimentos corpóreos corretos na execução das atividades laborativas do cotidiano. Não é possível pela metodologia empregada avaliar o quanto este fato isolado contribui para a redução de dor, porém, Willians(3) desde 1998 já atribuía real valor na aplicação destes cuidados.

Esta amostra foi formada à partir de pacientes que aguardavam a sua inclusão na rotina habitual de tratamento, a qual contempla atendimentos individuais, realizados duas a três vezes por semana, por período indeterminado.

Um resultado relevante é o elevado número de pacientes que não compareceram à convocação para participação no ACL (41 convocados e 21 presenças), além do número significante de pacientes que não cumpriram as três etapas do ACL (43%). Estes números podem sugerir que os valores culturais de nossos pacientes ainda não reconhecem como satisfatórias as medidas coletivas de atendimento à saúde, tendo maior adesão quando a relação terapeuta-paciente é individualizada.

Ao nosso ver, esta posição cultural poderá ser modificada com a busca do estabelecimento de um melhor vínculo com a equipe, como por exemplo, o encaminhamento ser originado de uma consulta médica aonde fique claro o diagnóstico de lombalgia postural, e de que o seu tratamento depende da participação ativa do próprio paciente, aonde obrigatoriamente se inclua mudanças de hábitos e práticas de novas atividades que serão orientadas na forma de aulas.

Outro fator a ser considerado, foi a melhora da dor (58,33%), e de outras manifestações de qualidade de vida (69,79%), em apenas três encontros terapêuticos, o que, em processos convencionais, seria apenas o período de avaliação de um paciente lombálgico.

Concluindo, o ACL é uma forma satisfatória de abordagem terapêutica na lombalgia, mas é necessário incluir neste programa novas estratégias, que permitam estabelecer um vínculo melhor com os pacientes.

Trabalho realizado no Serviço de Reabilitação da Santa Casa de São Paulo (SRSCSP).

Autores
*Médico assistente - SRSCSP.
**Fisioterapeuta especializada em Fisioterapia Hospitalar - SRSCSP
***Supervisor do curso de especialização em Fisioterapia Hospitalar - SRSCSP.
****Chefe da Terapia Ocupacional - SRSCSP.
*****Diretor - SRSCSP

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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