Revista Medicina Física e Reabilitação

20/05/2003

Aspectos psicológicos do paciente em reabilitação

Rossane Frizzo de Godoy

Os tratamentos interdisciplinares têm sido oferecidos, atualmente, como a melhor alternativa para o paciente em reabilitação. Especialmente para pacientes portadores de doenças crônicas ou de algum tipo de eficiência. Já que a interdisciplinariedade tem sido mais eficiente do que a assistência fragmentada.

A premissa de que o homem é único e indivisível é básica para o estabelecimento um tratamento que contemple igualmente os diversos aspectos envolvidos, sejam eles físicos, clínicos, sociais, espirituais ou psicológicos.

O objetivo básico desta reflexão é demonstrar a importância dos aspectos psicológicos do paciente em reabilitação para tê-lo como um aliado nesse processo. Dessa forma, cada profissional poderá fazer suas contribuições com maiores chances de serem acatadas pelos pacientes.

Aspectos Psicológicos do Paciente em Reabilitação.

O pressuposto básico de todo e qualquer processo reabilitativo, é a possibilidade da obtenção de alguma mudança benéfica ao paciente, mesmo nas circunstâncias mais desfavoráveis.

O conceito de reabilitação não é novo, antecedendo a Segunda Grande Guerra Mundial. Em 1942, o conselho de reabilitação declarou que a reabilitação é a restauração do indivíduo ao mais pleno potencial médico, mental, emocional, social e vocacional de que o mesmo é capaz. O auxílio terapêutico deve conter estratégias que compreendam as dificuldades do paciente, estimulando-os a superá-las, dentro de um contexto de possibilidades reais.

O modo como o paciente reage à deficiência adquirida na idade adulta, é muito particular, apresentando algumas diferenças importantes dos que são deficientes desde a infância.

Crianças que nascem deficientes tendem a receber menos responsabilidades por parte dos pais, obtendo maior tolerância com seus desvios de comportamento, o que de, maneira geral, tende a exacerbar o problema. Rejeição, superprotação e isolamento, são outras características que costumam estar presentes em deficientes natos.

Por outro lado, adultos que se tornam portador de deficiência ou de alguma doença crônica apresentam reações diferentes, de acordo com o tipo de disfunção ou debilidade. Insatisfações estéticas e as deformidades excessivas interferem no modo como o paciente irá vivenciar todo esse processo. Existe grande variabilidade na seqüência de reações emocionais e mecanismos de luta utilizados quando os indivíduos tentam resolver suas crises.

Outro aspecto relevante, concerne à rapidez com que a deficiência atinge a estabilidade ou à possibilidade dela cronificar-se, como, por exemplo, em pacientes com enfisema pulmonar.

Limitações são vividas de maneiras distintas, mas os sentimentos de perda, exclusão, de sentir-se aparte da sociedade, com grande freqüência tornam-se presentes, forçando o paciente a lidar com sentimentos de desesperança, ansiedade, depressão e, em muitos casos, com o medo da morte.

O processo de tratamento deve encorajar o diálogo franco entre o paciente, a família e a equipe de trabalho. Esclarecer os efeitos da doença ou da deficiência é uma das maneiras de se poder trabalhar com os mecanismos de defesa próprios de cada paciente, visando diminuir seu isolamento, negação, repressão, deslocamento e raiva, auxiliá-lo a motivar-se e manter uma participação ativa no curso da reabilitação. O bem-estar emocional do paciente é a chave de todo esse processo e deverá ser promovido por todos os membros da equipe.

A reabilitação física do paciente depende de sua motivação psicológica. O paciente precisa adotar uma postura positiva e disciplinada que lhe permita desenvolver um programa diário de atividades propostas pela equipe de trabalho.

Portanto, o contrato inicial deverá ser bastante específico e capaz de demonstrar ao paciente que a sua participação requererá um trabalho duro e compromissado, e que seu envolvimento é condição sine qua non para a obtenção de bons resultados (24).

A avaliação deverá ser interdisciplinar, devendo-se observar o que será passível de mudança. Quando a deficiência não puder ser corrigida ou abrandada, o paciente deverá ser trabalhado para que possa aceitá-la como qualquer outra realidade, agradável ou não. A idéia de incapacitação desnecessariamente imposta pela sociedade às pessoas deficientes deverá ser permanentemente combatida.

O Processo de Ajustamento Psicológico à Deficiência.

A reabilitação psicológica é um processo, uma evolução gradual, que ocorre através da aprendizagem de viver sem aquilo que foi perdido. O confronto com as limitações na realização da atividades de vida diária (AVDS), pode estar relacionado a importantes problemas de ordem psicossocial, incluindo ansiedade e depressão.

Sintomas de tristeza ocorrem com freqüência no decorrer do ajustamento à condição de deficiência. Queixas e lamentações são importantes porque auxiliam o paciente no processo de "cicatrização". Perceber a nova e dura realidade, a necessidade de realizar uma série de ajustamentos, é imprescindível para que o paciente apresente progressos.

Mecanismos de defesa, em especial negação, podem, nesse momento, assumir formas sadias ou não. A negação sadia auxiliará na sobrevivência, é adaptativa e deverá ser estimulada. Por outro lado, a negação patológica poderá interferir negativamente no processo de reabilitação e deverá ser trabalhada pelo psicólogo através de um processo de retroalimentação baseado na realidade, só assim o paciente poderá confrontar-se com a sua vida e apresentar algum tipo de mudança.

Alguns casos são marcados por prejuízos extremamente significativos na qualidade de vida dos pacientes, incluindo dificuldades profissionais, recreativas, de cuidados pessoais, sexuais e familiares. Vergonha, medo da não aceitação e da rejeição, fazem com que o paciente restrinja suas atividades e relacionamentos interpessoais, levando-o a um aprisionamento em seu próprio meio ambiente. Com isso, passa a delegar várias atividades a seus familiares, o que acaba contribuindo para a diminuição da autoconfiança e, da auto-estima, com conseqüente incremento da dependência.

O manejo psicológico adequado é essencial no tratamento do paciente inserido num processo reabilitativo, conforme pode ser observado nas ações abaixo relacionadas:
- Auxiliar na resolução da dissonância, decepção e o sofrimento ocasionados pela doença ou lesão;
- desenvolver estratégias de luta que levem-no a buscar sua independização para que possa recuperar o controle possível sobre a sua vida;
- ajudar a vencer a idéia de incapacidade generalizada e de inferioridade;
- intensificar os resultados na qualidade de vida dos pacientes;
- incentivar o aumento das atividades de cuidado pessoal, em casa e na comunidade;
- redirecionar as atividades de lazer, se necessário;
- trabalhar as dificuldades sexuais e conjugais;
- trabalhar com sua motivação para que ele possa descobrir novas possibilidades.

O enfrentamento desses aspectos, permitirá ao paciente constatar que as alterações produzidas pela doença ou lesão constituem uma crise na qual poderá haver crescimento e a descoberta de novos sentidos para sua existência. Tudo irá depender de como ele se posicionará frente a todo esse processo.

Rossane Frizzo de Godoy
3 - Especialista em Psicoterapia- PUC-RS
2 - Mestre em Ciências do Movimento humano- UFGRS
1 - Psicóloga do entro de Ciências Biológicas e da Saúde da Universidade de Caxias do Sul

Data de recebimento do artigo 05/06/02
Data da Aprovação 12/05/03

Endereço para correspondência:
Av. Rio Branco, 209/103. Caxias do Sul. CEP-95010-060.
FONE : (0XX)54-221-50-06


"Estimulação Elétrica Funcional - FES constitui recurso terapêutico, por excelência dirigido às afecções de origem muscular, tendo em vista o seu mecanismo de ação na contratilidade muscular e na função osteoarticular, cujos resultados são: a melhoria dos padrões posturais, da marcha e das funções do membro superior.

Os pacientes portadores de paralisias espásticas e tremores são igualmente beneficiados, nos quais se incluem os casos de doença de Parkinson.

A Estimulação Elétrica Funcional - FES apresenta, também ótimos resultados terapêuticos, ao ser associada com as injeções de toxina botulinica, em pacientes com contraturas musculares, espásticas ou não, e com o uso de órteses para a manutenção e continuidade dos efeitos terapêuticos obtidos.

O livro se compõe dos seguntes capítulos:
1- Desenvolvimento da Eletroterapia
2- Bases da Estimulação Neuromuscular
3- Critérios de Avaliaçâo dos Pacientes
4- FES e Hemiplegia
5- Lesão Medular: Técnica FES
6- Paralisia Cerebral e FES
7- FES aplicada e FES

É, pois, trabalho de consulta ou de referência obrigatória para o profissional de Medicina de Reabilitação e, por extensão, de reabilitação vivamente interessados em melhor qualificar o seu atendimento médico.

À Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, pelo apoio ao desenvolvimento da reabilitação hospitalar.

À Faculadde de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, pela valorização da Medicina de Reabilitação em seu currículo de graduação."

 

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